Se você fechar os olhos, provavelmente ainda consegue ouvir. A voz saindo do alto-falante do carro velho, passando devagar pela rua: "Olha aí, olha aí, freguesia...". O anúncio das pamonhas atravessou décadas, virou piada, virou meme, virou paródia — e continua sendo um dos sons mais reconhecíveis do Brasil.

Mas de onde veio essa gravação? Quem é a voz? E por que ela fala de Piracicaba, se a pamonha é tão ligada a Goiás? A história é mais bonita do que se imagina.

A voz por trás do bordão

O jingle foi criado e gravado por Dirceu Bigelli, vendedor de pamonhas de Piracicaba, no interior de São Paulo. Segundo relato de seu irmão, Airton Bigelli, a gravação foi feita em um estúdio do bairro Pauliceia — algumas fontes apontam 1969, outras situam o registro na década de 1970.

A ideia era simples e brilhante: em vez de gritar o dia inteiro na rua, gravar o anúncio em fita cassete e deixar o alto-falante trabalhar. O que ninguém imaginava é o tamanho que aquilo tomaria. A fita com a voz de Dirceu foi copiada e distribuída para cerca de 300 automóveis, que rodavam por São Paulo, Paraná e Minas Gerais, de acordo com reportagem publicada pelo G1 em 2015.

Dirceu Bigelli morreu em 20 de agosto de 1990, aos 39 anos, em um acidente automobilístico. A voz dele, porém, continuou rodando o país por décadas — provavelmente o caso mais bem-sucedido de marketing informal da história do comércio brasileiro.

Por que Piracicaba?

A tradição piracicabana da pamonha começou nos anos 1950, com as irmãs Vasthy e Noemi Rodrigues, que vendiam de porta em porta uma produção modesta, na casa de 200 pamonhas por dia. Com a popularização do jingle e dos carros de som, a escala mudou completamente: a produção da cidade chegaria a passar de seis mil unidades diárias na década de 1970.

Ou seja, o bordão não apenas anunciava as pamonhas — ele criou um mercado. Piracicaba virou sinônimo de pamonha doce para grande parte do Brasil por causa de uma fita cassete.

A curiosidade que quase ninguém conhece

Nos anos 1990, quem prestava atenção até o fim do anúncio ouvia algo estranho: depois de oferecer as pamonhas, a gravação convidava o ouvinte para uma festa de aniversário de uma agência de publicidade, com show de bandas famosas. Não era engano nem brincadeira — foi uma ação encomendada pelo publicitário Washington Olivetto, que enxergou no carro de som uma mídia genial: barata, itinerante e que ninguém conseguia ignorar.

E Goiás nessa história?

Aqui está o ponto que o jingle não conta. Enquanto Piracicaba ficou famosa pela pamonha doce vendida em carro de som, Goiás construiu a maior cultura de pamonha do país — e em silêncio, sem jingle nenhum.

Os números explicam. Segundo a Junta Comercial do Estado de Goiás, existem mais de 11 mil pamonharias registradas no estado, sendo cerca de 3.175 só em Goiânia, seguida por Aparecida de Goiânia, Anápolis, Rio Verde e Águas Lindas. Em 2022, a pamonha foi reconhecida por lei como Patrimônio Cultural Imaterial de Goiás. O estado tem até data própria: o Dia Estadual da Pamonha, em 3 de fevereiro, que coincide com o início da colheita do milho na região.

E há uma diferença de tradição importante: em Goiás, a pamonha não é só sobremesa. É refeição. Recheada com queijo, frango, linguiça, carne seca — algo que o carro de som paulista nunca anunciou.

Por que a palavra "pamonha"?

O nome vem do tupi e faz referência à textura pegajosa, grudenta, da massa de milho cozida. É uma herança indígena: os povos originários já cozinhavam a massa do milho verde dentro da própria palha muito antes de qualquer colonizador chegar. Se quiser se aprofundar, escrevemos um artigo inteiro sobre qual é a pamonha original e de onde ela realmente vem.

O carro de som mudou — a vontade continua

Hoje o carro da pamonha passa cada vez menos nas ruas. Muita gente que cresceu ouvindo aquele anúncio mora longe, em cidade grande, e não escuta mais o alto-falante virando a esquina. A vontade, no entanto, não passou.

A diferença é que agora a pamonha vai até você de outro jeito: ultracongelada, entregue em capitais de todo o Brasil, feita na tradição goiana. Conheça os sabores salgados, à moda e doces da Pamonha Oeste. O alto-falante mudou, o sabor não.

Perguntas frequentes

Quem gravou o jingle do carro da pamonha?
O vendedor piracicabano Dirceu Bigelli, que gravou o anúncio em fita cassete para usar no próprio carro de som. Ele faleceu em 1990, aos 39 anos, mas a gravação continuou rodando o país por décadas.

De que ano é o jingle da pamonha?
Não há consenso absoluto. Relato familiar aponta uma gravação feita em 1969, em um estúdio do bairro Pauliceia, em Piracicaba; outras fontes situam o registro na década de 1970.

Por que o carro da pamonha fala de Piracicaba?
Porque a gravação original nasceu lá, onde a produção de pamonha doce se popularizou a partir dos anos 1950 e ganhou escala com os carros de som.

A pamonha é de Piracicaba ou de Goiás?
De origem, de nenhuma das duas: a pamonha é indígena. Piracicaba ficou famosa pela versão doce vendida em carro de som, e Goiás desenvolveu a maior cultura de pamonha do país, incluindo as versões salgadas recheadas.

Quantas pamonharias existem em Goiás?
Mais de 11 mil estabelecimentos registrados no estado, segundo a Junta Comercial de Goiás, com a maior concentração em Goiânia.

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